sábado, 31 de outubro de 2009
all flowers in time bend towards the sun
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
HABITUS DE CLASSE E CLASSE DE HABITUS: Notas para uma análise das condições sociais do julgamento

Embora muitos colegas marxistas insistam em negar ou denegar, no mundo real da vida cotidiana, a luta de classes, muitas vezes (e até na maioria dos casos) assume a forma transfigurada de luta por classificações, isto é, a luta de pontos de vista diferentes entre indivíduos localizados socialmente na mesma classe social.
Neste texto, eu gostaria de fazer algumas considerações analíticas (provisórias) sob que condições sociais os indivíduos realizam seus julgamentos pessoais acerca do mundo social. Para isso, pretendo apresentar um caso exemplar empírico como ilustração que vai sustentar meus argumentos. O caso em questão é uma situação real de dois indivíduos que, apesar de apresentarem a mesma condição objetiva de classe, avaliam determinado produto cultural a partir de gramáticas cognitivas diferentes. O meu objetivo é tentar demonstrar como nossas condutas e julgamentos sociais, em condições objetivas favoráveis, são muitas vezes condicionadas pelos “habitus de pensamentos”, relativamente independentes dos constrangimentos de classe.
Semana passada, eu e um grupos de amigos fomos assistir ao filme mais novo do diretor dinamarquês Lars Von Trier – O Anticristo (2009). Logo após assistirmos a sessão desse filme, todos se dirigiram a uma cafeteria próxima ao cinema. E foi nessa cafeteria que um casal de amigos protagonizou uma discussão bastante interessante acerca da “qualidade” do filme. Minha amiga, psicanalista de formação, avaliou o filme positivamente, pois segundo ela, o mesmo lidava com temas familiares ao universo da psicanálise (luto, culpa, melancolia, psicose) de maneira muito “fiel” e “realista”. O outro rapaz, comunicólogo de formação, por sua vez, avaliava negativamente o filme, pois acreditava que o diretor deixava a desejar no tratamento “estético” do tema.
De maneira resumida, minha amiga psicanalista mobilizava uma leitura mais conteudistica do filme, enquanto que o jovem comunicólogo enfatizava uma leitura de “forma” ou mais estética do filme. E a maneira como cada um avaliou o filme se traduziu em julgamentos opostos sobre a qualidade do produto cultural discutido.
Considero muito interessante o caso empírico apresentado enquanto um exemplo de como podemos aplicar uma análise disposicional dos comportamentos e gostos sem abrir mão da análise de classe.
Bom, numa análise tradicional de classe, não seria possível explicar a oposição entre os dois debatedores, pois se tratavam de duas pessoas localizadas socialmente na mesma condição de classe, isto é, pertenciam à “classe média”. Como explicar por que dois indivíduos situados na mesma coordenada de classe apreciavam de maneira diferente determinado produto cultural (filme)?
Responder a essa questão é algo, a meu ver, muito mais elementar para quem mobiliza o arsenal da tradição disposicional da sociologia. Aqui, a sociologia de Pierre Bourdieu demonstra toda a sua eficácia heurística na forma de aplicação analítica. Dito isso, vejamos como podemos pensar a variação de julgamento entre indivíduos situados numa mesma condição objetiva de classe.
Primeiramente, como frisamos anteriormente, é preciso destacar a mesma propriedade objetiva comum aos dois indivíduos, a sua condição de pertencimento à mesma classe social (classe média). Porém, também é importante destacar a propriedade “distinta” entre os dois e que, possivelmente, é responsável pela avaliação “distinta” sobre o filme. A psicanalista quando avaliava o filme, mobilizava categorias cognitivas consonantes com o seu habitus sócio-profissional (psicanalista). Da mesma maneira, o rapaz também mobilizava categorias cognitivas solidárias ao seu habitus sócio-profissional (comunicólogo). Assim, me parece que a propriedade mais “pertinente” para se compreender os julgamentos dos dois acerca do filme acabou sendo a “classe dehabitus” mobilizada por cada um, ao contrário do “habitus de classe” (afinal, os dois, em certa medida, são portadores do mesmo habitus de classe, ou seja, pertencem à mesma condição de classe média).
No entanto, essa constatação não invalida a análise de classe, visto que é justamente a condição objetiva de classe que possibilitou se mobilizar gêneros de habitus de pensamento dissonantes inter-indivíduos. Para ser mais claro, foi a condição de “desprendimento” ou denegação em relação às urgências materiais (econômicas e simbólicas) mais imediatas, compartilhada pelos dois agentes que proporcionou a entrega ao “jogo do julgamento social”. Sendo assim, as duas modalidades de habitus de pensamento (habitus psicanalítico e habitus de comunicação) para se ativarem necessitam da mesma condição objetiva de desprendimento ou autonomia relativa das necessidades econômicas e simbólicas. Dito de outra maneira, embora esses habitus não tenham, necessariamente origem na mesma situação de classe, suas atualizações dependem, sim, da mesma condição objetiva, pois tratam-se de habitus escolásticos, “relaxados” em relação ao mundo das necessidades urgentes.
Tendo em vista o caso exposto acima, podemos tirar algumas conclusões mais gerais sobre as condições sociais de aplicação de nossos julgamentos.
Em primeiro lugar, conforme Bourdieu nos ensina, é preciso ter em mente que “habitus de classe” e “classe de habitus” não são necessariamente a mesma coisa. Conforme o exemplo do nosso caso empírico, podemos está localizados numa mesma coordenada social, o que pressupõe o(s) mesmo(s) habitus de classe (conjunto de habitus de classe média, habitus pequeno-burguês, etc.) sem, no entanto, sermos portadores da mesma classe de habitus (habitus psicanalítico, habitus sociológico, habitus jornalístico, etc.).
Dito de outro modo, um determinado de habitus de classe pode apresentar uma variação interna de diferentes classes de habitus, ou seja, “gêneros distintos” de habitus de uma mesma classe social. E é interessante esse ponto da diferença entre "habitus de classe" e “classe de habitus". Com um mínimo de atenção, dá para perceber que Bourdieu reconhecia uma pluralidade de habitus internos secundários (habitus sociológico, habitus psicanalítico) a um mesmo habitus primário (classe média). Assim, um mesmo habitus de classe pode comportar, de acordo com os indivíduos, uma pluralidade de gêneros de habitus de pensamento.
Em segundo lugar, para se compreender melhor a natureza social das práticas e comportamentos individuais, é preciso apreender as “propriedades gerais” (características ou disposições culturais que são trans-individuais) e as propriedades particulares (características ou disposições culturais individuais e intra-individuais) de classificação social mobilizada pelos diferentes agentes.
Por fim, incorporar as orientações analíticas acima à uma análise de classe, pois, como procuramos demonstrar, a teoria de classes ainda se mostra uma ferramenta fundamental para a compreensão do comportamento social, desde que sujeita a uma revisão teórica necessária.
domingo, 18 de outubro de 2009
O luto do amor obsessivo

Ansiedade, saudade, baixa auto-estima, compulsão para o choro, sentimento de fracasso, culpa, tristeza indefinida e dor, dor pela “perda” daquele ou daquela que atribuímos e dirigimos o nosso amor...
A psicanálise sempre enxergou o amor romântico como parte do regime das pulsões ou, basicamente, como uma forma de sublimação da pulsão libidinal primeva. E a conseqüente “perda” do objeto de amor, resultando numa espécie de “luto” ou ferida narcísica, esta poderia assumir a forma “normal” ou “patológica”, conforme o grau de extensão e intensidade do estado de melancolia produzido.
Para além desse olhar, gostaria de pensar o amor também enquanto uma forma de refugio num mundo inóspito. Uma necessidade de refugio contra a insegurança ontológica gerada pelo sentimento de se está à deriva numa época de muitas promessas e de poucas realizações.
De acordo com o filosofo canadense Charles Taylor, o sentimento de amor conjugal surge como parte de uma transformação mais ampla da sensibilidade na segunda metade do século XVIII. É neste século que vai haver uma consagração moral do sentimento, cuja vivencia passa a ser parte da realização de uma vida plena. Agora, a experiência de uma vida conjugal baseada no ideal de afeto e amor romântico, em contraposição aos casamentos arranjados em épocas anteriores, assume uma importância crucial no projeto de bem viver de muitas pessoas.
Mas é também, assinala Taylor, no séc. XIX que surge o “amor obsessivo”, conseqüência do crescente processo de privatização da família que se torna cada vez mais uma esfera relativamente autônoma em relação à sociedade. O investimento nesse amor obsessivo em certa medida atende a uma necessidade de refúgio diante das incertezas presentes na vida moderna: insegurança no trabalho, escassez de fontes de reconhecimento social, impossibilidade de construção de narrativa de vidas. É à ele que recorremos para nossa autoproteção emotiva. Sim, porque como disse anteriormente, na era do sentimento, precisamos realizar nossa sensibilidade de alguma maneira. Por outro lado, conforme sentencia Taylor, “somente numa época que valorizava o sentimento é que a melancolia pôde ser cultivada”. E é aqui que as observações de Freud acerca do “luto” e da “melancolia” fazem todo o sentido. Tão doloroso quanto a perda daqueles que amamos é a experiência gradativa de desprendimento dos vínculos que nos ligavam ao objeto de amor. Ainda que reconheçamos com certa lucidez a realidade, muitas vezes necessária, dos fatos, da plena consciência diante da partida sem volta daquele ou daquela que foi embora, ainda assim...respiramos bem fundo e admitimos: “eu sei que ele(a) foi embora, mas o problema é que ele(a) ainda mora dentro de mim”.
A falência da war on drugs e a guerra civil nas grandes cidades

Criada pelos Estados Unidos durante a administração Bush (1989 – 1993), a política de “tolerância zero” com as drogas e a incorporação de estratégias repressivas e militares parece está encontrando seu ponto de saturação, dados os resultados concretos obtidos até o momento atual. Estudos recentes divulgados pela ONU apontam que o consumo de psicoativos no mundo praticamente não se alterou desde dos anos de 1990. Passado a euforia inicial com os resultados “positivos” na cidade de Nova York, pesquisas mais atualizadas revelam que, embora tenha ocorrido uma retração no controle do narcotráfico por parte de gangs de ruas e conseqüente queda na violência urbana, por sua vez, houve uma imigração do controle da distribuição de drogas, agora nas mãos de uma fração de classe média altamente especializada e mais adaptada ao regime de “tolerância zero” que procura agir no mercado de drogas da maneira mais ascética, discreta e “pacifica” possível. Além disso, já se sabe que a cidade de Nova York , atualmente, está situada entre as cinco cidades (mais importantes) produtoras de maconha em território americano.
Na Colômbia, se é verdade que houve um encolhimento do narcotráfico associado às guerrilhas, proporcionado pelo Plan Colômbia, também é verdade que novos cartéis constituídos na fronteira e mesmo em cidades metropolitanas colombianas emergem atualmente, cujo resultado tem sido a manutenção (em relação a Colômbia) do status de maior produtor de cocaína refinada do mundo. Ironicamente, tem até chefe de cartel de drogas pedindo votos para a reeleição de Álvaro Uribe.
Por fim, os moradores de nossas metrópoles brasileiras assistem a perpetuação e naturalização do cenário de terra arrasada produzido por uma guerra insana que só aumenta o contingente populacional dos cemitérios públicos da cidade.
