Costumamos julgar o caráter de uma pessoa a partir de um conjunto de qualidades que ela possui (ou pelo menos acreditamos possuir) e consideramos importantes. Dentre essas qualidades, destacamos a sua independência, sua autonomia e sua autenticidade. Admiramos pessoas auto-suficientes, seres “capazes” de crescimento pessoal e profissional, cujas realizacoes sao tidas como o produto das próprias acoes individuais. Também admiramos aqueles que nao precisam dos outros pra sobreviver, que nao sao dependentes, seja afetiva, seja materialmente. Nao menos importante, cultivamos grande respeito por aqueles que enxergamos como sujeitos autênticos em suas idéias, gostos e modos de agir. Enfim, embora nos pareca um tanto óbvio, ser portador dessas qualidades constitui requísito mínimo de respeito e reconhecimento social. Por outro lado, a mesma aparente “evidência” nao se observa sobre as condicoes sociais diferenciadas para a efetivacao de tal crenca compartilhada coletivamente por todos nós. Nao basta você dizer a si mesmo ou ao outro que você é uma pessoa “autonoma”, “livre” e “autentica”. Embora as palavras tenham forca, nem sempre as mesmas sao suficientes para forjar realidades, no máximo, ilusoes e auto-enganos. É preciso demonstrar nas próprias práticas diárias a real forca das auto-imagens individuais. É nesse sentido que existe um conjunto de signos sociais compartilhados que nos servem de quadros para julgamentos sobre o grau de autonomia, liberdade e autenticidade de uma pessoa. Dentre esses marcadores sociais, destacam-se: o trabalho; morar sozinho ou, pelo menos, ser o provedor de uma família; cultivar uma cultura distinta e diferenciada em relacao ao senso comum coletivo, etc. É partir dessas características externas que avaliamos os outros e a nós mesmos no que se refere a definicoes de sujeitos autênticos, livres e autonômos.
Entretanto, esses signos sociais de autonomia, liberdade e autenticidade nao estao dados e disponíveis a todos; ao contrário, é preciso, antes de tudo, ter acesso aos mesmos e isso implica também, condicoes sociais prévias mínimas de insercao. Por exemplo, nao é todo trabalho que se traduz necessarimente em autonomia, haja vista, a possibilidade de estarmos sujeitos a formas precarizadas de atividades produtivas, além do mais, que gozam de pouco prestígio social na sociedade (empregado doméstico, lixeiro, atendente de caixa em supermercados, coveiro, dentre outros). Nao obstante, há também os baixos salários que impossibilita sair da condicao de necessidade material imediata, condicionando o indivíduo a vivenciar a relacao com o trabalho como “trabalho forcado”. Além disso, cultivar uma cultura socialmente “distinta” pressupoe, acima de tudo, cultivar uma cultura letrada ou pelo menos, “erutida” aos parâmetros estéticos de nossa sociedade. E essa condicao está longe de ser universal ou universalizavel, dadas as condicoes extremas de desigualdade de acesso a cultura legítima.
Dito de outro modo, apenas uma parcela bastante minoritária da sociedade consegue realizar os ideais de bem viver compartilhados coletivamente e que sao fontes geradoras de respeito e reconhecimento social (autonomia, liberdade e autênticidade).
Fundamentalmente, aqueles estratos sociais que apresentam condicoes materiais e culturais mínimas de denegacao das necessidades, sejam estas materiais, sejam culturais. Aos que nao atendem a tais exigências objetivas, resta-lhes os estigmas dos socialmente “dependentes”, “escravos” e “inautênticos”. Mas isso é apenas um detalhe para os estratos privilegiados socialmente, basta “olhar para cima” e ser “blasê”. Afinal, é chique e distinto.
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