sexta-feira, 26 de novembro de 2010

SE GRITAR PEGA LADRAO, NAO FICA UM MEU IRMAO



O recente escândalo envolvendo o alto escalao de políticos do RN e empresários locais  num esquema de corrupcao e pagamentos de propinas seria uma grande oportunidade de apredizado moral para a sociedade nao fosse o tratamento maniqueísta dado por parte da imprensa potiguar.

Nos últimos dias, os jornais locais têm recheado suas páginas com denúncias e mais denúncias  acerca do esquema de pagamentos de propina no Governo do Estado, sumpreendendo o mundo político local e a sociedade potiguar como um todo. Esquema aquele, dinamizado por nomes importantes da política potiguar e por empresários interessados em ter acesso preferencial a recursos materiais do Estado. Eis que surge aos olhos dos nossos jornalistas locais, uma excelente pauta para reportagens investigativas que descrevam e expliquem as reais condicoes promiscuas e quase nunca explicitadas em que se processam os convênios e licitacoes estatais de muitas empresas que vêem suas contas bancárias adquirirem  tecido adiposo tao rápido quanto um raio caído de um céu azul. Mas como tem se comportado uma parte da imprensa local? Ecoa as vozes denunciantes em tom de “desabafo” dos empresários (de “bem”) envolvidos e deixa em segundo plano, o produto do trabalho “ingrato” de ter que se fazer acordos espúrios com os políticos do “mal”: o enriquecimento ilícito de todos os operadores envolvidos, inclusive os empresários.  

O empresário denuciante, é claro, precisa justificar sua conduta moralmente duvidosa. Está tentando tirar o seu da reta, algo compreensível, embora precariamente aceitável. E a auto-vitimizacao é uma estratégia muitas vezes útil, além de possivelmente eficaz na articulacao da defesa montada pelos advogados do denunciante. O político, por sua vez, precisa adotar a retórica da “indignacao” pessoal diante do ataque jugular a sua honra. E assim, cada ator dessa tragicomédia veste a máscara do cinismo que melhor lhe convém.

Sem querer desqualificar as torpes meias-verdades distribuídas pelo elenco desse teatro, acrescentaria, no entanto, que tal episódio apenas confirma a relacao sem peias morais que envolve todas as transacoes econômicas motivadas exclusivamente pela compulsao selvagem para o lucro dos agentes envolvidos, sejam estes, políticos ou empresários. No entanto, ao se comprar sem o mínimo de reserva crítica a versao dos empresários denunciantes que alegam terem sido “obrigados”, “constrangidos” a venderem a alma ao diabo (claro, este sempre na roupagem do “político”), alguns jornalistas prestam um grande desservico educacional à sociedade potiguar ao reforcar ainda mais, de um lado, o imaginário negativo acerca do Estado e da política – enxergado vulgarmente como  lócus da maudade corruptivel humana; e do outro, a imagem das supostas “virtudes” do mercado (agora, “vítima”), denegando os interesses materiais  escusos  que perpassam as diversas formas de relacoes entre Estado e mercado.

Se a imprensa local pretende mesmo cumprir seu papel civilizatório na problematizacao  “isenta” da corrupcao denunciada, deve antes e acima de tudo, se afastar da divisao maniqueísta entre “algoz”  e “vítima”, tal como querem vender publicamente os empresários envolvidos no episódio de pagamentos de propinas. Sem hipocrisias, nesse episódio nao há “mocinhos” ou “vítimas” de um lado e “bandidos”, do outro. Quem conhece razoavelmente as condicoes “subterrâneas” de acesso aos convênios e licitacoes do Estado (no caso, os empresários), sabe muito bem que “armas” mobilizar na hora de entrar no “jogo” de relacoes pessoais (e também impessoais) entre o público e o privado. E convenhamos, muitos empresários locais dominam com bastante desenvoltura e naturalidade as “regras” tácitas do  jogo - político e econômico - travado às portas fechadas das secretarias governamentais. E acima de tudo, sem encargos de consciência. Pelo menos, até serem pegos. 

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