domingo, 26 de dezembro de 2010

NOTAS SOBRE AS CONDICOES DE COLONIZACAO DO SENSO COMUM PELO SENSO COMUM DOUTO




Nao se rompe com “velhos” habitos por decreto ou por uma tomada de consciência. Conforme a sociologia disposicional (Pierre Bourdieu e Bernard Lahire) demonstrou empiricamente, é preciso prática rotineira e tempo dedicado para a ruptura ou aquisicao de “habitus” (maneiras de pensar, falar e agir). O aprendizado cognitivo deve ser acompanhado também de um aprendizado prático, postural, corporal.


Em minhas últimas experiências de pesquisa de campo, vivenciei uma situacao bastante elucidativa da dificuldade em se romper com o senso prático adquirido. Quando estive em Belém (PA), realizando entrevistas empíricas em companhia de outro pesquisador, conheci um senhor muito interessante numa feira livre tradicional da capital. Esse senhor, cujo nome por questoes éticas, chamarei aqui de Sr. L, era vendedor de peixes frescos recém-desenbarcados dos barcos pesqueiros que atracavam num porto próximo à mesma feira, ainda durante a madrugada. Era também às margens (literalmente) do mesmo porto que Sr.L montava sua banquinha para venda de peixes a todas as pessoas que circulavam na feira durante o dia. Homem de cor negra, mas também de pele bastante bronzeada pela constante exposicao diária ao sol, Sr.L se mostrou aos nossos olhos (meu e do colega pesquisador) uma fígura muito simpática e sociologicamente pertinente para os fins de nossa pesquisa naquele período. Dentre outros aspectos relacionados a sua condicao objetiva de classe, o que nos chamou mais atencao em Sr.L foi a maneira como este mobilizava de modo enfático uma retórica de justificacao moral para a sua permanência naquele local, mesmo contrariando a exigências oficiais de preservacao ambiental. 


É que naquele período, Sr.L, juntamente com outros vendedores ambulantes que realizavam suas transacoes econômicas a margem do porto, enfrentava a forte pressao da promotoria de justica do meio ambiente da regiao que exigia o deslocamento dos trabalhadores e comerciantes daquele local, por razoes de preservacao ambiental das águas e do porto, visivelmente contaminadas por degetos e restos de pescados, frutas e leguminosas apodrecidos e jogados ao rio que circundava a feira. Nao por acaso, os comerciantes e pescadores dividiam a paisagem com urubus em busca de pedacos de peixe em decomposicao no rio. Nesse sentido, o argumento da promotoria de justica do meio ambiente parecia de todo, bastante razoável, uma vez que se tratava de resgatar (ou criar) uma condicao ambientalmente sustentável no local, conhecido e reconhecido pelas comunidades autóctones e pelas instituicoes públicas como patrimônio histórico e cultural da cidade. 


No entanto, os argumentos mobilizados discursivamente por Sr.L para a sua permanência no local, também nos parecia convicentes, pois o mesmo trabalhava e frequentava desde crianca naquele espaco, criando fortes lacos intersubjetivos com muitos de seus “velhos” clientes, um elemento sociologicamente importante nas trocas econômicas, conforme salientou Mark Granovetter  (em sua teoria das redes sociais) e Pierre Bourdieu (com a sua nocao de capital social). Nao somente os vínculos afetivos existentes com clientes “fieis”, mas também a posicao espacial estratégica da banquinha de venda permitia grande visibilidade e facilidade de acesso a novos potenciais clientes que passavam nas proximidades do local (era possível visualizar com uma certa distância Sr.L e alcancá-lo sem muito esforco pelos corredores da feira). 


Além desses argumentos verossímeis, nos chamou atencao, particularmente, a principal estratégia retórica utilizada por Sr.L  para rivalizar com o discurso oficial da promotoria de meio ambiente. Assim como os promotores de justica, Sr.L defendia o caráter de patrimônio cultural e histórico do local, o que, segundo ele, englobaria nao somente o meio ambiente físico, mas também as práticas culturais disseminadas naquela localidade, a exemplo de seu próprio oficio de pequeno vendedor de pescados à margem do rio. Para um pesquisador do social apressado ou desavizado, pareceria evidente a aparente atitude reflexiva ou consciente, articulada pelo nosso entrevistado em relacao a importância social e histórica da localidade. E certamente, nao faltariam antropologos - obsessivamente preocupados em encontrar e distribuir a taja de reflexividade a todos os agentes - para “certificar” tal atitude reflexiva de Sr.L. Entretanto, subvertendo as falas de Marx, deve-se distinguir as frases e as fantasias dos (agentes) de sua formacao real e de seus interesses reais, o conceito que fazem de si do que sao na realidade. E nao foi preciso muito esforco etnográfico para perceber as contradicoes entre a representacao de si e a real prática de Sr.L. Pode parecer ao leitor um pouco hilário e mesmo surreal a descricao que farei de tal cena, mas acreditem foi real; no instante em que Sr.L. (exaltado) destacava o quao ele também compartilhava com a visao de que a feira era um patrimônio cultural e histórico a ser presevado, o mesmo jogava cabecas e outras partes de peixe no rio, nao somente, despejava a água (no mesmo rio) que utilizava  para realizar a limpeza e estracao das visceras dos peixes, contribuíndo, desse modo, para a contaminacao da localidade. Essa gritante contradicao entre o discurso e a prática, claro, levou eu e meu colega pesquisador a questionar a origem do discurso politizado de Sr.L. E foi somente em outras conversas futuras que voltei a ter com Sr.L que fiz uma descoberta sociologicamente apimentada: Sr.L.  já havia recebido visitas de antropologos e historiadores que lhe transmitiram o conhecimento sobre a importância social da localidade, assim como importância das práticas culturais existentes. 


Dito de outro modo, ficou bastante claro que Sr.L. incorporou a retórica acadêmica de acordo com suas conveniências práticas, isto é, enquanto estratégia pré-reflexiva de responder adequadamente a problemas pragmáticos da sua vida cotidiana, a exemplo do confronto com a promotoria de justica do meio ambiente. A questao fundamental para Sr.L. nao era tomar consciência ou nao para com a preservacao ambiental ou cultural do local onde trabalhava, mas de poder exercer o trabalho que era a fonte exclusiva de satisfacao das suas necessidades materiais, assim como de sua família. Daí o recurso estratégico (pré-reflexivo) à retórica da preservacao das práticas comerciais estabelecidas. E diria estratégia pré-reflexiva, pois nao se tratava de uma adesao moral consciente a determinada visao de mundo (preservacao cultural), mas de uma adesao simplesmente baseada na eficácia social de tal discurso no sentido de legitimar e resguardar a sua condicao de trabalho. Possivelmente Sr.L. nao incorporaria tal discurso se o mesmo nao tivesse efeito social algum enquanto estratégia de acao. 


Em suma, o que podemos aprender com o caso empírico de Sr.L? que muitas vezes os agentes incorporam de maneira inarticulada um conjunto de discursos construídos (e articulados de modo reflexivo) na esfera da ciência, nao porque tenham operado verdadeiras rupturas reflexivas com os “velhos” habitus, mas porque encontraram no discurso “douto” ou nos “sistemas peritos” (termos de Anthony Giddens), respostas satisfatérias para problemas postos pela acao pragmática. Esse fenômeno de circulacao hermenêutica estratégica tao importante sociologicamente (mas que muitos antropologos nao enxergam ou nao querem enxergar) de se estudar é o que Bourdieu costumava chamar de  “efeito de teoria”, isto é, a existência de cada vez mais agentes, no próprio seio do mundo social, que fazem entrar conhecimentos doutos, senao científicos, na sua prática e, sobretudo, no seu trabalho de producao ou de manipulacao das representacoes do mundo social. Enfim, reproduzir um discurso gerado por habitus reflexivos nao implica, necessariamente, a incorporacao de habitus reflexivos. 

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