
No senso comum, temos uma relacao encantada com a palavra modernidade. Sempre atribuímos a esse termo tudo que se refere a progresso da vida humana. É bem verdade que existem, de fato, situacoes de desenvolvimento material na vida das pessoas, a exemplo de inovacoes tecnológicas criadas para facilitar nossos empreendimentos diários, assim como a producao em grande escala de riqueza material. Mas a modernidade nao se confunde apenas com progresso material da sociedade. Como bem demonstrou, primeiramente Max Weber, a sociedade moderna também apresenta inovacoes sociais nas esferas moral e cognitiva, uma vez que foi sob seu bojo que se originou de maneira massificada processos de racionalizacao da vida cotidiana e a universalizacao de uma ética ( primeiramente religiosa) secularizada do trabalho. Entretanto, é importante lembrar, o próprio Weber e também Karl Marx destacaram as contradicoes e perversoes da modernidade: o seu discurso de progresso e suas promessas de emancipacao humana também se traduziram em danacao e barbarie humana. Esse é caso do aumento populacional das grandes metropoles modernas, do autoritarismo de Estado, dos problemas de trânsito nas rodovias das grandes cidades, da producao massificada de lixo industrial, da crescente favelizacao e o aumento do contigente populacional da ralé estrutural nas mais diversas expressoes (moradores de rua, subproletariados, desempregados, etc.). Paradoxalmente, muitas pessoas no senso comum tendem a enxergar esses fenômenos como exemplos de “ausência” de modernidade, isto é, tomam por “causa” aquilo que é justamente o efeito social perverso da presenca disseminada da modernidade. Foi essa dimensao socialmente perversa que os intelectuais da Escola de Frankfurt criticavam; Habermas chegou a falar em “patologias da modernidade”. Nao por acaso, este último pensador frankfurtiano, desencantado com as promessas do progresso material, dirigiu sua aposta política no potencial ético dos ideais da “Aufklärung”, precisamente de universalizacao dos ideais de igualdade, de liberdade e da justica (componentes da cultura moral moderna). Sao esses mesmos ideais que Taylor vai chamar de bens morais ou sociais das sociedades modernas ocidentais.
Diante disso, nem toda forma de desenvolvimento e inovacao material se traduz, consequentemente, em melhorias e enriquecimento de nossa vida. Assim, tenha grande desconfianca no que se refere ao argumento sempre mobilizado e mobilizável (“é a última palavra em modernidade”) para a realizacao de transformacoes materiais na sociedade (novas construcoes arquitetônicas, “novos” modelos de automoveis, novas empresas, shoppings). Há certos modelos de desenvolvimento material eticamente dispensaveis. Falar em modernidade implica também levar em consideracao os seus componentes valorativos e ideais (ideologias, valores). Operar transformacoes na vida material sem esses componentes “espirituais” ou “culturais”, é apenas tornar o hospício ou o sistema prisional, lugares mais ascépticos e palataveis aos visitantes(ainda que a custa do aumento do seu contigente populacional de moradores).
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