Uma das últimas participacoes oficiais do presidente Lula em fóruns de debate da sociedade civil foi num encontro latino-americano de catadores de lixo que houve em Sao Paulo no último mês de dezembro de 2010. Para muitos jornalistas e analistas da política, tal gesto correspondeu a mais uma demonstracao pública de populismo político do líder máximo da nossa Nacao. Já para os catadadores presentes no evento, no entanto, o reconhecimento social da “dignidade” de seu ofício.
Embora já passados meses, muitos dentre os que lêem este texto, devem se lembrar bem do comentário jocoso do jornalista Boris Casoy acerca dos garis que, segundo o primeiro, festejavam “do alto de suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho”. Além do racismo de classe implicito, tal comentário colocava a nú, em certa medida, uma hierarquia moral do trabalho, quase nunca verbalizada, que perpassa a relacao valorativa que temos com as diferentes formas de trabalho, mas que sempre que possível, denegamos ao nosso inconsciente social (até este último resolver nos trair). Trata-se da hierarquia valorativa entre corpo e mente, onde todas atividades humanas identificadas com o trabalho intelectual gozam de status e reconhecimento se comparadas às formas de trabalho “corporal” (pedreiro, lixeiro, empregada doméstica, etc.), estas, classificadas e percebidas como de menor valor social.
No caso dos profissionais que lidam manualmente com o lixo, destacaria ainda uma segunda hierarquia associada diretamente a nocao mesma de trabalho manual ou corporal, ou seja, a distincao qualitativa entre trabalho “puro” e trabalho “impuro”. É essa segunda forma de hierarquia valorativa dominante na cultura ocidental que coloca as atividades corporais identificadas com o trabalho de limpeza (lixeiro, faxineira, catador de lixo) na “escala mais baixa” da hierarquia do trabalho.
É fácil entender, desse modo, as dificuldades em se romper com essas categorias de classificacao e oposicao valorativa impensadas. Pois as mesmas se encontram incrustradas no nosso entendimento mesmo do mundo social. Nao se trata apenas de lentes embacadas pelo tempo, mas de uma visao domésticada que aprendeu a enxergar e perceber o mundo dessa maneira. Daí o duplo desafio moral (político) de promover pequenos cortes simbólicos de lâmina nessas visoes aristocráticas fortemente consolidadas na sociedade. E é sobre esse aspecto que a presenca de um chefe de Estado num encontro de catadores de lixo tem o efeito psicológico devastador de um germe de revolucao. Precisamente, daquelas formas de revolucao que se processam no plano moral e simbólico. Seus efeitos concretos, embora nao tenham ainda o alcance social em grande escala, já podem se fazer sentir como pequenos e significativos ruídos no sistema moral dominante: a producao de auto-estima e auto-respeito compartilhado entre os trabalhadores do lixo.Pode parecer pouca coisa ao olhar distanciado dos detentores de títulos escolares que ocupam postos de prestígio na divisao social do trabalho. Mas para aquele conjunto de trabalhadores socialmente estigmatizados, é o reconhecimento oficial de sua dignidade humana.
* Imagem retirada do seguinte link: http://br.ibtimes.com/articles/18814/20101224/dilma-promete-continuar-pol-ticas-sociais-de-lula-para-catadores.htm

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